Relato de Caso Clínico:
Manejo Adjuvante do Transtorno Depressivo Recorrente com Cannabis Medicinal
Identificação:
Idade e Sexo: Paciente do sexo feminino, 45 anos.
Comorbidades Clínicas: Hígida.
História da Moléstia Atual (HMA) e Histórico Psiquiátrico:
Paciente com diagnóstico de Transtorno Depressivo Recorrente, acompanhada em ambiente psiquiátrico.
A estratégia terapêutica adotada anteriormente previa o uso de antidepressivo (AD) durante os períodos de exacerbação, mantido por um período de manutenção e posteriormente descontinuado, período no qual a paciente permanecia bem temporariamente até a ocorrência de uma nova recaída.
Em episódio prévio, apresentou excelente resposta terapêutica à sertralina na dose de 100 mg/dia. Durante o tratamento, apresentou um episódio de energia alta; a hipótese de hipomania foi descartada e a alteração remitiu com a redução da dose para 50 mg/dia.
Após a manutenção e suspensão gradual da sertralina, a paciente evoluiu para uma nova exacerbação depressiva.
O psiquiatra assistente iniciou recentemente paroxetina na dose de 10 mg/dia (subdose inicial).
A paciente e seu psiquiatra buscaram interconsulta para avaliar o potencial de benefício e a segurança da introdução da cannabis medicinal no plano de cuidados.
Estilo de Vida e Fatores Psico-organizacionais:
Ocupação: Funcionária do Poder Judiciário.
Estressores: Estresse ocupacional constante (sem preencher critérios diagnósticos para Síndrome de Burnout) e sobrecarga familiar relacionada ao cuidado dos filhos.
Desafio Terapêutico e Contexto Clínico:
Recorrência e Manejo de Longo Prazo: Transtornos depressivos recorrentes (com 3 ou mais episódios) possuem alta taxa de recaída com a suspensão do tratamento convencional. Contudo, a manutenção crônica de inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS) pode vir acompanhada de efeitos adversos significativos (disfunção sexual, alterações metabólicas, sonolência, vertigem, queixas gastrointestinais e sudorese).
Objetivo Interdisciplinar: Avaliar o uso da cannabis medicinal como estratégia adjuvante ao tratamento psiquiátrico de base, visando o alívio sintomático, o manejo do estresse crônico, o aumento dos períodos de estabilidade e a potencial redução das doses ou do tempo de exposição aos antidepressivos sintéticos.
Racional e Benefícios da Cannabis Medicinal no Caso
Modulação do Sistema Endocanabinoide (SEC): A atuação sobre o SEC interfere diretamente na regulação neuro-psico-imuno-endócrina e no eixo intestino-cérebro. A modulação canabinoide tem potencial para atuar na regulação do humor, redução da ansiedade, ganho de foco, concentração, energia e restauração da homeostase frente ao estresse crônico.
Uso do Canabidiol (CBD) e Efeito Comitiva: A introdução de um óleo Full Spectrum (rico em CBD) atua na modulação da ansiedade e estabilização do humor. A presença de múltiplos fitocanabinoides e compostos da planta potencializa a resposta terapêutica por meio do efeito comitiva (entourage effect).
Ação Antidepressiva Adicional (CBG e Terpenos):
CBG (Canabigerol): Apresenta promissor papel antidepressivo por sua ação antagonista nos receptores $5\text{-HT}_{1\text{A}}$.
Terpenos: A inclusão de compostos como o limoneno (encontrado em óleos essenciais como o de laranja doce) e o beta-cariofileno (que atua diretamente em receptores canabinoides) pode agregar propriedades ansiolíticas e antidepressivas ao tratamento.
Titulação Cautelosa do THC: O uso do THC em proporções baixas e controladas (ex: razões de 10:1 CBD:THC) pode ser benéfico para o humor e sono, devendo ter sua indicação ajustada após avaliação detalhada do perfil de ansiedade ou tendência ao pânico da paciente.
Estratégia Poupadora de Fármacos e Adjuvância: A cannabis surge como uma alternativa de perfil de risco/benefício favorável. Como adjuvante, pode permitir o controle de sintomas residuais, melhorar a tolerabilidade e viabilizar a manutenção da estabilidade clínica com menores doses do antidepressivo sintético.
Abordagem Integrativa: A introdução dos canabinoides deve ser combinada com intervenções não farmacológicas essenciais para o manejo da depressão e do estresse, tais como higiene do sono, regulação do ciclo circadiano, prática de atividade física, adequação nutricional e acompanhamento psicoterápico.